A arte chinesa contemporânea está doente...

Era inevitável. Quatro anos depois do grande "boom" da arte contemporânea chinesa, o mercado começa a dar os primeiros sinais de cansaço e, segundo o Herald Tribune (edição de 5 de Dezembro), o fim do estado de graça poderá estar à vista. Em circunstâncias normais, dir-se-ia que isto seria apenas um reflexo da grave crise económica que atravessa o Planeta de uma ponta à outra. Afinal, os resultados desastrosos nos últimos leilões apontam para essa possibilidade - no último leilão de arte chinesa da Christie's, no dia 30 de Novembro, em Hong Kong, apenas 18 das 32 obras que foram a leilão é que encontraram comprador e a preços abaixo das expectativas. Porém, a situação ganha outros contornos se tivermos em conta que nos últimos anos houve uma geração espontânea de artistas  que, salvo honrosas excepções, andou literalmente a reboque de uma tendência de mercado.
 
Em quatro anos, o carrocel chinês foi alucinante, quase anedótico: confirmaram-se talentos e sobrevalorizaram-se outros tantos; a especulação inflacionou os preços do mercado e produziu falsos ícones; e, acima de tudo, deu-se a entender que a arte chinesa contemporânea tornou-se tão importante a certa altura que, por breves momentos, acreditámos ingenuamente que estávamos perante uma vanguarda do século XXI. Existirá, de facto, um denominador comum a estes artistas que aponta claramente para a noção de movimento ou tendência. E uma manifestação desta natureza, que irrompe em bloco pelo mercado transmitindo um certo ideal cultural da China contemporânea, não pode ser desprezada. No entanto, o estatuto de vanguarda parece-nos abusivo - uma ideia que será, certamente, devidamente analisada nos próximos anos, depois da poeira assentar...

No entanto, esta será porventura a melhor altura para adquirir algumas peças interessantes a bons preços. Esquecida a euforia desmedida dos últimos anos e com os especuladores a virarem-se para outras paragens, a própria crise ajudará a trazer algum bom senso e a redefinir a lógica de mercado, a separar o trigo do joio, o essencial do acessório. E, sobretudo, a produzir um certo equilíbrio que irá oferecer uma visão mais real daquilo que é a arte contemporânea chinesa. Com os olhos postos no Oriente, a pergunta impõe-se: e agora, quem será o último a rir?...


Yue Minjun, "Between Men And Animal" (2005)

COMO FAZER UM HAPPENING? - ALLAN KAPROW



Como fazer um “happening”? Aparentemente, a resposta à pergunta não é fácil e confunde-se mesmo com a própria definição de “happening” – uma espécie de performance previamente encenada, embora dada muitas vezes a exercícios de improvisação, que ocorre normalmente em lugares inusitados e incentiva o envolvimento do espectador na própria acção. Criado e incessamente explorado pelo norte-americano Allan Kaprow no final dos anos 50, viria a tornar-se bastante popular na década seguinte, quando milhares de artistas o adoptam como o meio de expressão artística por excelência, abandonando progressivamente a pintura.
A democratização do “happening”, não só nos Estados Unidos mas também um pouco por todo o Mundo, dava origem a um novo capítulo de importância fulcral na história da arte do século XX. Apesar da sua aceitação pela instituição arte, o meio estava longe de ser consensual. As discussões em torno do “happening” animavam os círculos académicos, que todos os dias levantavam um conjunto de problemas com os quais era difícil de lidar. 
A verdade é que toda a gente fazia um “happening”, mas eram poucos aqueles que se aventuravam a descrever passo-a-passo a preparação do mesmo, desde o nascimento da ideia à sua concretização. Em 1966, Kaprow decide finalmente desvendar a receita e lança o disco “How To Make A Happening”, onde explica de forma detalhada aquilo que devemos fazer, e não fazer, para elaborar um “happening”. Originalmente lançado pela Mass Art, o disco nunca viria a ser distribuído em larga escala, em virtude da falência da editora pouco depois do seu lançamento. Agora, pela mão da editora Primary Information, “How To Make a Happening” volta aos escaparates em formato CD (1000 exemplares) – um lançamento devidamente celebrado aquando a sua apresentação na Maccarone Gallery, em Nova Iorque, onde a histórica gravação foi reproduzida em simultâneo por cem rádios. As encomendas são feitas aqui.

LIGHTNING BOLT EM PORTUGAL!

A espera foi longa, demasiado longa, mas eles aí estão. Senhoras e senhores, meninas e meninos, os Lightning Bolt aterram, finalmente, em Lisboa no próximo domingo, 23 de Novembro. O concerto, organizado pela ZDB, acontece no piso -5 do parque de estacionamento do Largo do Camões - bem longe do piso térreo, portanto - e promete causar estragos nos ouvidos dos mais corajosos. O ruído é a palavra de ordem. Deixem passar a caravana do estrilho de Brian Chippendale e Brian Gibson, por favor.


MUTUAL ART



Imagine, caro leitor, que agora todas as notícias, críticas e informações sobre as últimas exposições e feiras de arte se encontram reunidas no mesmo sítio. Uma autêntica Biblioteca de Alexandria à distância de um "clic", actualizada ao minuto e baseada no perfil e interesses de cada utilizador  - localização, artistas, suportes e movimentos favoritos. Parece mentira, mas é verdade. Desenvolvido nos últimos dois anos e lançado no princípio de 2008, o Mutual Art é um serviço que pretende agilizar o acesso à informação de entusiastas, estudantes, colecionadores e profissionais do mundo da arte, recorrendo a milhares de fontes de informação em simultâneo, através de um poderoso suporte tecnológico. Esqueçam a Artfacts, a Artnet... Esqueçam isso tudo. Desde o aparecimento da Internet, esta é talvez a ferramenta mais útil e revolucionária que os amantes da arte podem encontrar. O registo é feito apenas por convite de um membro já existente e, caso alguém esteja interessado, o Entrelinhas pode dar uma ajudinha... Basta pedir. Isto se não quiser desembolsar trezentos euros, claro.




ARTE LISBOA2008

A "Arte Lisboa" está de volta à cidade. Entre 19 e 24 de Novembro, a FIL (Parque das Nações) acolhe a 8ª edição do certame, com a participação de setenta galerias nacionais e estrangeiras.
Entre avanços e recuos, algumas polémicas e outros problemas conjunturais, o percurso da Arte Lisboa tem sido tudo menos pacífico, sofrendo com os inevitáveis obstáculos que vão surgindo na preparação de todas as edições e, consequentemente, acabando por desempenhar um papel pouco expressivo à escala global. Incapaz de suscitar o interesse de galerias provenientes de mercados mais aliciantes, como a Inglaterra, a Alemanha ou  a França, a Arte Lisboa acaba por ir angariar a maioria das galerias participantes ao país vizinho. Esporadicamente, o seu raio de acção é alargado a outros países, nomeadamente de língua oficial portuguesa, apesar  da sua presença ser praticamente residual. É, portanto, um evento periférico  e à margem dos grandes acontecimentos do género a nível europeu.
Nesta 8ª edição da Arte Lisboa interessa saber, acima de tudo, se a organização tem capacidade para assumir uma nova atitude que envolva uma perspectiva de continuidade, abandonando o autismo que caracterizou as últimas edições. Resta saber se a Arte Lisboa continua a enredar-se no seu próprio novelo, "orgulhosamente só", e pouco interessada em captar novos públicos.  Para já, a avaliar pelo ciclo de debates agendados - pobre, impopular e acessível apenas a uma minoria especializada -, a descrença é grande. Para conferir no decorrer da próxima semana.

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Galeria Marz (Lisboa)

Ainda cheira a fresco. Inaugurada há um par de semanas, a novíssima galeria Marz fica ali para os lados de Alvalade (Lisboa) e promete dinamizar aquela área com um programa anual bastante aliciante: sete exposições e três projectos específicos para uma sala pequena. Da responsabilidade de Carlos Marzia e Nancy Dantas (ex-Cristina Guerra), a Marz vai trabalhar com uma pequena lista de artistas nacionais e estrangeiros: Alexandre Estrela, Bruno Pacheco, Isabel Simões, Pedro Diniz, Rui Valério, entre outros. Na exposição inaugural, a Marz apresenta em simultâneo “Six Degrees of Separation” (João Seguro) e “And it Came to life” (Ryan Gander). É favor ir lá dar um salto, claro. 



"More Statements In The Spirit Of Militant Agnosticism" (Michael Biberstein na Cristina Guerra)

 

Há uma luz universal que atravessa  qualquer obra de Michael Biberstein. A mesma luz que podemos encontrar diluída no sfumato de Mona Lisa ou, se não quisermos acordar o olho preguiçoso, na incandescência absurda de Turner. Todas elas são, sem excepção e cada uma à sua maneira, mentirosas. É disso que a arte se trata - um espelho distorcido da realidade em que fingimos acreditar. No entanto, a luz que hoje está à nossa frente é assumidamente irreal, desafiando as limitações da retina, numa viagem que começa exactamente aí para acabar nos confins da imaginação. A partir daí, as manchas de cor esbatida do artista suiço - que se fixou no Alandroal (Alentejo) há mais de trinta anos - assumem uma dimensão espiritual e especulativa, obrigando-nos a idealizar uma espécie de realismo mental. É uma luz que nos invade a mente, exercendo uma estranha sensação de relaxamento, e nos leva a questionar se não existirá algo para além disto - da vida e da própria pintura (Biberstein chama-lhes pinturas "psico-fisiológicas). É, no fundo, um trabalho que se suporta nas grandes tradições da pintura, seja através da cor ou do traço diluído, embora atinja uma dimensão metafísica que raramente vemos nos seus antecessores. 
Em "More Statements In The Spirit Of Militant Agnosticism", a terceira exposição individual de Michael Biberstein na Galeria Cristina Guerra, em Lisboa, existirá contudo uma ligação à terra completa. Mas, desenganem-se aqueles que pensam que vão encontrar aqui qualquer tipo de redenção. Aqui só há lugar para uma experiência maior. E isso já não é pouco.

Mais informações e imagens aqui.






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"Vou-te Contar Uma História" na Porta 33 (Funchal)

 (pedimos desculpa pela ausência prolongada, mas afazares profissionais obrigaram a adiar e a esquecer, por momentos, as nossas paixões. As Entrelinhas seguem dentro de momentos)


Caros amigos,

Aqui está uma prova de que a Madeira mexe. E bem. "Vou-te Contar Uma História" é uma exposição colectiva de desenho, patente na Galeria Porta 33, no Funchal, até ao próximo dia 13 de Dezembro. Comissariada por Delfim Sardo, esta exposição reúne um conjunto de artistas fundamentais dos últimos quarenta anos - nacionais e estrangeiros - que utilizam o desenho como processo narrativo: Helena Almeida, Francis Alys, Pedro Barateiro, Ilya Kabakov, Martin Kippenberger, Vik Muniz, Gabriel Orozco, Raymond Pettibon, Rirkrit Tiravanija, Lawrence Weiner, entre outros. Vale a pena desviar a rota por uns dias, portanto.


OBRAS DE DAMIEN HIRST VÃO A LEILÃO NA SOTHEBY'S

"If you say to someon that galleries take 50 percent, they'de be shocked by that. In any other bussiness, it's an extortionate amount of money. I've never tought it made much sense."

É verdade, às vezes, a ironia vem donde menos se espera. Se lhe dissermos que a frase acima citada é da autoria de Damien Hirst, acredita? A declaração surgiu a propósito de Beautiful Inside My Head Forever", o leilão resultante da venda directa das suas obras à leliloeira Sotheby's. Livres de quaisquer taxas, as obras serão postas à venda através daquela leiloeira, evitando pela primeira vez o intermediário habitual neste tipo de transacções, as galerias, de forma a combater um sistema "injusto para os artistas", diz Hirst... Perdão, o artista mais rico da Grã-Bretanha. 
"Beautiful Inside My Head Forever" irá decorrer em Londres, nos próximos dias 15 e 16 de Setembro, e segundo a Sotheby's prevê-se uma receita na ordem dos 114,5 milhões de dólares. Recorde-se que Damien Hirst é também o autor da obra "For The Love God", uma caveira totalmente coberta com diamantes, que o leitor pode levar para casa pela módica quantia de 50 milhões de libras.




Update:

Bastante oportuno - e com título a condizer -, Damien Hirst é capa da edição europeia da revista "TIME" desta semana (15 de Setembro). "Artist as Rock Star" é o título perfeito de um extenso artigo sobre o artista britânico, que procura saber se o leilão da próxima semana "é o fim da arte ou o início de algo novo". E, porventura, será justo falarmos em Andy Warhol do século XXI?... De qualquer forma, vale a pena gastar 4,20€.



"N" RAZÕES PARA IR/VOLTAR À TATE MODERN EM 2009

É isso. E se nunca lá esteve, não hesite e dê um salto a Londres em 2009. Lá para os lados da Tate Modern há arte da boa, para ver e para sentir. As últimas aquisições da dita instituição falam por si e despertam os sentidos de qualquer curioso. O programa para o próximo ano adivinha-se, portanto, guloso. Senão, vejamos: de um total de 439 obras e gastos na ordem dos 112 milhões de dólares, a extensa lista de compras inclui nomes como Damien Hirst (4 obras), Louise Bourgeois ("Maman", aquela aranha enorme, gigante...) ou Francis Bacon (2 obras). Em relação a exposições também não ficamos nada mal servidos: "Sold Out" (um olhar sobre como os artistas 'pop' e os seus sucessores se venderam a si próprios; artistas como Warhol, Koons, Keith Haring ou Damien Hirst têm presença assegurada) - 1 de Outubro de 2009 a 17 de Janeiro de 2010; "Van Dyck and Britain" - 18 de Fevereiro a 17 de Maio de 2009; "Turner and the Masters" (Rubens, Canaletto, Rembrandt ou Constable vão estar por lá...) - 23 de Setembro a Janeiro de 2010; uma retrospectiva de Richard Long (a primeira em Londres nos últimos 18 anos) - 3 de Junho a 6 de Setembro de 2009).
Sim, pelos vistos da maneira como as coisas estão por aqui, o melhor é mesmo rumar a paragens como esta. Convencidos?...