| entrelinhas ( @ 2008-07-27 01:29:00 |
FRANCIS PICABIA
Esqueçam os manifestos, as paródias com Duchamp e Man Ray ou as belíssimas telas pintadas algures entre o final da década de 20 e os primeiros anos da década de 30. A melhor fase de Francis Picabia situa-se entre 1939 e 1945, onde o artista francês dá uma sacudidela na apatia criativa que a Guerra entretanto provocara. O artista parecia zangado, mas recusava-se a perder o sentido de humor. É precisamente nesta altura que Picabia nos oferece aquilo que nós queríamos. Aquilo que nós merecíamos.
São retratos de pin-ups decadentes, divas de postal, decalcados de uma qualquer revista erótica banal, onde é impossível descortinar à primeira vista qualquer motivação lógica/válida por parte do artista. Muito criticados na altura, foram unanimemente descritos como repugnantes, ultrajantes, superficiais e de péssimo mau gosto. Eram sobretudo um atento à moralidade reinante, e não lidavam bem com as ideias do modernismo autoritário. Digamos que a vulgaridade do "kitsch" e do nu banal, grosseiro, tal como eram representados por Picabia, não representavam condignamente as ambições de uma instituição que, nesta altura, lutava para ser levada a sério.
No entanto, aquelas imagens que hoje serão facilmente descritas como "realismo popular", inspiradas no softcore e na publicidade, foram uma bela pedrada no charco do marasmo que se vivia na época. São, com efeito, uma bela manifestação anti-arte pós-dada, na linha daquilo que os seus colegas e amigos, Man Ray e Marcel Duchamp, tentavam explorar incessantemente."Kitsch", grotescos e carregados de ironia, estes retratos são definitivamente um capricho, livre de qualquer preconceito, que procurava suscitar uma convulsão, uma reacção violenta, a um público aparentemente irascível e avesso à mudança. O mau gosto assumia, mais uma vez, o estatuto de anti-arte.
Tal gesto, aparentemente inocente e sem quaisquer pretensões formais, inspiraria no entanto uma geração que já não suportava a altivez representada pelo expressionismo abstracto. Vinte anos depois, as telas "ultrajantes" de Picabia ganhavam um novo sentido, sendo frequentemente apontadas como forte inspiração da arte pop, sobretudo do ponto de vista conceptual, ao apropriarem-se de um imaginário demasiado mundano. A ruptura e a provocação estarão sempre intimamente ligados a estes dois momentos. E, porventura, será mesmo injusto desligar a as divas de Picabia às Brillo Box de Warhol, assim como distinguir a postura de ambos os artistas perante a obra e o seu público. Eles merecem o elogio: deliciosamente "kitsch".

"Femmes au bull-dog" (1941-1942)


"La brune et la blonde" (1941-1942)

"Deux femmes au pavots"

"Deux Nus" (1941)

Cinq Femmes" (1942)

"La danseuse de french-cancan" (1942-1943)

"L'élégance" (1942-43)
Esqueçam os manifestos, as paródias com Duchamp e Man Ray ou as belíssimas telas pintadas algures entre o final da década de 20 e os primeiros anos da década de 30. A melhor fase de Francis Picabia situa-se entre 1939 e 1945, onde o artista francês dá uma sacudidela na apatia criativa que a Guerra entretanto provocara. O artista parecia zangado, mas recusava-se a perder o sentido de humor. É precisamente nesta altura que Picabia nos oferece aquilo que nós queríamos. Aquilo que nós merecíamos.
São retratos de pin-ups decadentes, divas de postal, decalcados de uma qualquer revista erótica banal, onde é impossível descortinar à primeira vista qualquer motivação lógica/válida por parte do artista. Muito criticados na altura, foram unanimemente descritos como repugnantes, ultrajantes, superficiais e de péssimo mau gosto. Eram sobretudo um atento à moralidade reinante, e não lidavam bem com as ideias do modernismo autoritário. Digamos que a vulgaridade do "kitsch" e do nu banal, grosseiro, tal como eram representados por Picabia, não representavam condignamente as ambições de uma instituição que, nesta altura, lutava para ser levada a sério.
No entanto, aquelas imagens que hoje serão facilmente descritas como "realismo popular", inspiradas no softcore e na publicidade, foram uma bela pedrada no charco do marasmo que se vivia na época. São, com efeito, uma bela manifestação anti-arte pós-dada, na linha daquilo que os seus colegas e amigos, Man Ray e Marcel Duchamp, tentavam explorar incessantemente."Kitsch", grotescos e carregados de ironia, estes retratos são definitivamente um capricho, livre de qualquer preconceito, que procurava suscitar uma convulsão, uma reacção violenta, a um público aparentemente irascível e avesso à mudança. O mau gosto assumia, mais uma vez, o estatuto de anti-arte.
Tal gesto, aparentemente inocente e sem quaisquer pretensões formais, inspiraria no entanto uma geração que já não suportava a altivez representada pelo expressionismo abstracto. Vinte anos depois, as telas "ultrajantes" de Picabia ganhavam um novo sentido, sendo frequentemente apontadas como forte inspiração da arte pop, sobretudo do ponto de vista conceptual, ao apropriarem-se de um imaginário demasiado mundano. A ruptura e a provocação estarão sempre intimamente ligados a estes dois momentos. E, porventura, será mesmo injusto desligar a as divas de Picabia às Brillo Box de Warhol, assim como distinguir a postura de ambos os artistas perante a obra e o seu público. Eles merecem o elogio: deliciosamente "kitsch".

"Femmes au bull-dog" (1941-1942)


"La brune et la blonde" (1941-1942)
"Deux femmes au pavots"

"Deux Nus" (1941)

Cinq Femmes" (1942)

"La danseuse de french-cancan" (1942-1943)

"L'élégance" (1942-43)